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Uma plataforma brasileira de IA promete cortar 70% do tempo do veterinário na consulta — falta ela mostrar como chegou nesse número

A InIA.Pet, ferramenta nacional de documentação clínica por IA, circula pela imprensa do setor pet com uma promessa de otimização de 70% do tempo administrativo. Fomos atrás do estudo por trás do número. Não encontramos nenhum publicado — e isso diz mais sobre o mercado do que sobre essa empresa em particular.

“Otimiza em 70% o tempo do veterinário.” É a frase que tem circulado em veículos do setor pet nas últimas semanas sobre a InIA.Pet, plataforma brasileira que escuta a consulta, transcreve e gera automaticamente anamnese, prontuário, receita e termo de consentimento — apresentada ao mercado durante a PET VET, a maior feira veterinária da América Latina. A ferramenta resolve um problema real: tempo perdido em burocracia é a queixa mais comum de veterinário em qualquer pesquisa do setor, aqui e lá fora.

O número é chamativo. Setenta por cento é quase três quartos do tempo administrativo de volta para o veterinário. Fomos atrás de onde esse número vem — que estudo, que amostra, que metodologia sustenta um resultado desse tamanho. Não encontramos nada publicado, nem no material de divulgação nem no site da empresa. Isso não significa que o número seja falso. Significa que, hoje, ele não é verificável por quem está do outro lado da decisão de compra.

Não é um caso isolado

Vale registrar: isso não é uma particularidade da InIA.Pet. É o padrão do mercado. Mostramos aqui no blog, há duas semanas, um estudo publicado na revista científica Frontiers in Veterinary Science que auditou a documentação pública de 71 produtos de IA vendidos para clínica veterinária nos Estados Unidos. Resultado: 63,3% dos produtos não divulgam publicamente nenhum dado de validação. E o problema é pior justamente na categoria de IA generativa/ambiente — a que ouve consulta e organiza prontuário, a mesma categoria da InIA.Pet — onde apenas 2,1% dos fornecedores citam evidência revisada por pares com métrica de acurácia específica.

Ou seja: uma empresa brasileira lançar um número de otimização de tempo sem mostrar o cálculo por trás não é exceção. É o comportamento mais comum da categoria inteira, em qualquer país. O que muda de um caso para o outro é só a moeda do número — 70% aqui, “até 50%” ali, “reduz o tempo pela metade” acolá.

Por que “otimizar tempo” é fácil de prometer e difícil de provar

Todo software de documentação por IA reduz tempo de digitação — isso é verdade quase por definição: gravar e transcrever é mais rápido que digitar do zero. A pergunta que o número de marketing não responde é outra: tempo reduzido comparado com o quê, medido como, em quantas consultas, de quantos veterinários, em que tipo de atendimento? Um piloto controlado — como o que a rede australiana Vets Central rodou por quatro semanas em 8 clínicas antes de decidir escalar, também já contado aqui no blog — mede isso de um jeito. Uma frase solta em material de divulgação mede de outro, e o segundo não é mensuração: é promessa.

Isso não é acusação de má-fé. É provável que o time da InIA.Pet tenha visto esse ganho de tempo em algum grupo de clínicas reais. O problema não é a experiência ter acontecido — é ela não estar documentada de um jeito que outra clínica, decidindo se compra ou não, consiga verificar antes de assinar.

A pergunta que vale mais que o número

Se você é dono de clínica avaliando qualquer ferramenta de IA — nacional ou internacional, essa ou qualquer concorrente — o número de redução de tempo estampado no material de vendas não deveria ser a primeira coisa que você aceita. Deveria ser a primeira coisa que você pergunta como foi medida. Quantas consultas? Quantos veterinários? Comparado a quê? A empresa tem disposição de mostrar o método, ou só o resultado?

É por esse motivo que o Alvera Vet nunca estampa um número de redução de tempo como promessa genérica de produto — o único relato de tempo que aparece no nosso próprio material é o depoimento nominal de uma veterinária que usa a ferramenta todo dia, sempre identificado como depoimento dela, nunca como estatística do produto. E é por isso que cada hipótese ou exame sugerido durante a consulta vem com a fonte que a embasa: não porque é bonito citar fonte, mas porque é a única forma de o veterinário checar se a sugestão faz sentido antes de confiar nela — e a decisão final continua sendo sempre dele.

A pergunta que fica não é se a IA economiza tempo — isso praticamente qualquer ferramenta de documentação faz, em algum grau. É se a empresa que vende essa promessa está disposta a mostrar o cálculo, ou só o resultado.


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